E era tua a chuva
Que me caía da boca
Para molhar o teu corpo
De terra verde
Para ser mais uma folha
Em cima do tronco
Dessa paisagem que nasce
Do incêndio dos (a)braços
Pelo qual se vai
Definhando o coração.
Izidro Alves
E era tua a chuva
Que me caía da boca
Para molhar o teu corpo
De terra verde
Para ser mais uma folha
Em cima do tronco
Dessa paisagem que nasce
Do incêndio dos (a)braços
Pelo qual se vai
Definhando o coração.
Izidro Alves
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Sangram na pedra
Submersos em poalha de luz
As suas mãos
E inscrevem no chão a lume
Gravado a sol e suor
A pedra que irrompe
Luminosa como uma estrela.
Amadora, 29 de Maio de 1985
Izidro Alves
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O verso que juraste não fazer
A lágrima
A caneta
A tinta preta
Quero só para mim
Esse espólio de imagens calcinadas
Ardendo
Ardendo
Ardendo
Izidro Alves
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Vais
Por entre a água e a terra
Os olhos quase a morrer
Cegam a última luz de Junho.
Ah e o jacarandá a florir
O jacarandá a florir.
Meu deus ninguém pode morrer.
Ninguém.
Ninguém.
Izidro Alves
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Estão em harmonia
Todas as palavras
E só por ironia
São chamadas
Ao juízo do poeta.
O melhor é dormir a sesta:
O último poema que me resta.
Izidro Alves
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Só tenho para me matar
A fisga com que matei um melro.
Izidro Alves
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Porque sempre foste amigo das árvores
Também com elas morres no Outono.
Mas com o anúncio trazido pelas aves
- e porque de ti és dono?
Regressas jovem e florido a este mundo
Ao corpo da terra que de novo abres.
Izidro Alves
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Acredito em Deus
Porque foste minha mãe
E se hoje vou à missa
No aniversário da tua morte
Não vou rezar por ti
Não vou pedir perdão
Por não ter sido o homem que sonhei
Vou fazer um verso
Para por na tua sepultura.
Izidro Alves
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Aqui fica a entrevista feita a Izidro Alves por António Amaro Rosa do jornal Serras da Pampilhosa.
“A grande diferença entre um homem rural e um homem urbano é a intimidade do lugar. Sei exactamente o sítio onde nasci. Apalpo com as mãos as paredes do quarto e até há pouco tempo ainda existia a cama onde a minha mão me pariu. Tudo isto são sinais gravados na minha pele e que de certo modo moldaram a minha personalidade”
Izidro Alves, de seu nome Isidro dos Santos Alves, nasceu a 10 de Junho de 1958 na aldeia de Malhadas da Serra, na freguesia de Pessegueiro, sendo filho de Firmino Alves Júnior e de Alzira dos Santos Alves.
Aprendeu as primeiras letras na aldeia do seu nascimento e na sede de freguesia. Aos 12 anos veio para trabalhar num restaurante de familiares. Efectuou os estudos secundários nas escolas “Nuno Gonçalves”, em Lisboa, “Ferreira Dias”, no Cacém, e na Escola Secundária da Amadora. Frequentou ainda o curso de Estudos Portugueses na Universidade Aberta, na capital portuguesa.
Profissionalmente desempenhou várias actividades, desde estafeta num atelier de arquitectura, passando por desenhador de instalações eléctricas numa empresa de construção civil, até criador de textos publicitários numa agência de publicidade. Actualmente é técnico de inspecção automóvel.
OBRA
Izidro Alves publica o primeiro poema no “Diário de Noticias – Jovem” no início dos anos 80. “O lado do silêncio” assim se chama esse poema e era dedicado ao poeta Eugénio de Andrade.
Nos anos 80 publica nos anuários de poesia da editora Assírio e Alvim e que teve grande notoriedade na altura. Basta lembrar que alguns nomes que aí publicaram são hoje nomes cimeiros da literatura portuguesa. Exemplo maior o escritor José Eduardo Agualusa.
Nos anos 90, a convite do poeta Fernando Grade, colabora na colecção de poesia “Viola delta”. Também nos anos 90 colabora em diversas revistas literárias de Castelo Branco e do Porto, tais como a “Pé de cabra” e “Sirgo”, esta dirigida pelo poeta e professor António Salvado, e em jornais como o “Jornal de Letras, “Artes e Ideias” dirigido pelo poeta e jornalista José Carlos Vasconcelos.
Já no início deste século publica em co-autoria o livro “Terna ausência” com prefácio do escritor José Luís Peixoto, numa edição Porta do Cavalo.
No ano de 2006 publica também em co-autoria o livro de poesia “Santo ofício”, com prefácio do professor e escritor Urbano Tavares Rodrigues, também numa edição Porta do Cavalo.
ENTREVISTA
Serras da Pampilhosa – Descreva-nos a sua vivência em terras pampilhosenses até ao momento em se viu obrigado a deixá-las. Presumo que nelas tenha passado a sua infância…
Izidro Alves – Aqui nasci e aqui vivi até aos 12 anos. Nesse tempo a vida era muito difícil e só não foi de miséria total por que tinha a ternura de minha mãe e os meus irmãos mais velhos já ajudavam nos trabalhos da lavoura… de fartura só havia o sol e a água para citar um grande poeta, Eugénio Andrade, da nossa fraterna Beira.
Para concluir o exame da 4.ª Classe ia da minha aldeia à sede de freguesia, sete quilómetros para cada lado por caminhos, carreiros e saltando ribeiros para chegar à escola. De Inverno ficava com a roupa molhada no corpo o dia inteiro porque fazer a 4.ª Classe exigia sacrifícios, dizia minha mãe. Lembro-me que a primeira vez que fui à Vila a pé, fazer o exame da 4.ª Classe, da minha aldeia à sede de concelho, 20 quilómetros para cada lado.
Talvez de belo só guarde na minha memória o tempo em que guardava as cabras e lhes atirava pedrinhas como beijos de paixão. Não, não tenho saudades desse tempo. Só tenho saudades do tempo que há-de vir. E de já cá não estar para o viver…
SP – Desloca-se com alguma regularidade a Malhadas da Serra e a Pampilhosa da Serra?
IA – Visito a região quatro ou cinco vezes por ano. Aqui passo parte das férias e até há pouco tempo aqui passava o Natal. Aqui tenho irmãos permanentemente e outros parcialmente. Aqui venho sentir o cheiro da terra, ver a água a correr nos ribeiros, ver as cabras – que ainda há – a pastar nas serras, esses belos animais que tanto fascínio exercem sobre mim.
A minha ligação a esta região é intrínseca. Nunca se esquece o sítio onde se passou a infância, apesar de não ter sido muito feliz. A grande diferença entre um homem rural e um homem urbano é a intimidade do lugar. Sei exactamente o sítio onde nasci. Apalpo com as mãos as paredes do quarto e até há pouco tempo ainda existia a cama onde a minha mão me pariu. Tudo isto são sinais gravados na minha pele e que de certo modo moldaram a minha personalidade.
SP – Em que momento e porque razão se dedicou à escrita?
IA – Comecei a escrever por volta dos 18 anos. As razões da escrita ou de qualquer forma artística nem sempre são claras. No entanto, posso afirmar que no meu caso tem a haver com um desejo premente de comunicar, aliado à minha personalidade introspectiva.
O facto de vir para a grande cidade com 12 anos para trabalhar criou em mim um grande desafecto. Os pais na aldeia, eu na grande cidade, não deve ser reconfortante para um miúdo com 12 anos. Como dizia Sartre “eu tinha que fazer qualquer coisa para sair do meu inferno”. E paralelamente a leitura de grandes poetas que pouco e pouco entraram no meu coração: Eugénio Andrade, Ruy Belo , Al berto , Jorge de Sena, Raul Carvalho, Ramos Rosa e tantos, tantos outros foram moldando o meu desejo pela escrita – porque não se é poeta sem primeiro ser leitor.
SP – Quanto tempo dedica à escrita?
IA – O tempo que dedico à escrita não pode ser contabilizado em horas ou minutos. Quem trabalha oito horas ou mais, pouco sobra para outros afazeres.
Normalmente escrevo durante a noite. Às vezes uma noite inteira à procura de uma palavra que faça sentido para no outro dia deitar tudo fora. Não é fácil fazer um poema, não é como carregar num botão e já está. É um trabalho árduo e que exige muito sacrifício que só com o gosto pelas palavras e a persistência se consegue construir.
SP – Neste momento tem algum projecto em curso? Pode adiantar-nos algum pormenor?
IA – Sim, tenho duas colectâneas de poemas preparadas à espera de publicação. Publicar poesia não é fácil, apesar de sermos um país de poetas, dizem. Triste contradição. Assim resta-me esperar para que “Oficídio“ e “A lenta construção das coisas possessivas “ possam ser publicadas.
SP – Em que medida as suas raízes malhadenses influenciam a sua escrita ou o seu modo de ser?
IA – A minha terra é uma raiz de que tenho orgulho e dor. Estas fragas, estes pinheiros, estes ribeiros, estas serras, não se nasce impunemente no meio disto. “O medonho canto da coruja”, “o tanque da fraga”,”este sol que nunca viu o mar “, todos estes elementos entraram nos meus versos. E às vezes são o seu esplendor.
SP – Certamente acompanha a vida do nosso concelho. Como o vê hoje e quais as suas perspectivas quanto ao seu futuro?
IA – Pampilhosa da Serra é um concelho que tem desenvolvido alguma coisa, mas não o necessário à sua prosperidade. Quando fui pela primeira vez à vila, à cerca de 40 anos, tudo era diferente. Só a escola primária, onde fiz o exame da 4.ª Classe, permanece, hoje com outras funções.
No futuro, Pampilhosa da Serra só conseguirá sobreviver se estancar a hemorragia da desertificação. Um concelho tão grande e com tão pouca gente pouco poderá fazer na era da globalização. Oxalá eu me engane, mas se houver coragem política para fazer uma reforma administrativa como fez Mouzinho da Silveira no século 19, o nosso concelho corre o risco de desaparecer.
SP – Como avalia o regionalismo e quais as suas perspectivas para o amanhã?
IA – O regionalismo teve o seu mérito no século passado quando as câmaras não dispunham de receitas próprias para acudir às necessidades das populações. Houve homens abnegados e trabalhadores que graças ao seu trabalho conseguiram coisas que hoje nos orgulhamos: a água ao domicílio, as estradas, a electricidade e tantas, tantas outras coisas.
Hoje já não faz sentido. Faz sentido sim, a regionalização. Actualmente o trabalho das comissões de melhoramentos só terá futuro numa área de recreação e de cultura afectiva.
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(só em ti a vida é capaz de morrer.)
Izidro Alves
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Sabes que o orvalho
Ainda nasce na tua boca
E também sabes que os estorninhos
Ainda poisam na nespereira
Do quintal.
Então porque perguntas
Pela poesia?
Se já te disse que era rimbaud
E a abissínia era minha
E París eras tu.
Izidro Alves
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Encontro-te assim:
Junto da janela
Por onde o mar entra
Para te ver afogado.
Izidro Alves
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Pode florir em Gaza
Onde Deus não existe
E o céu explode
Em nuvens de sangue.
Pode florir em Bagdade
Onde tu nunca foste
Mas sabes que morrer
Não é Deus que manda a morte.
Ou pode florir em Malhadas da Serra
Que ninguém sabe onde fica
Mas é a minha terra
É a minha terra
Mas esta que floresce
No jardim da minha casa
Não tem o esplendor da magnólia
Da Luísa Neto Jorge
Mas é a minha magnólia
É a minha magnólia
Capaz de fazer de Fevereiro
O mais bonito mês do ano
Izidro Alves
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Em primeira se subia.
Só quando se chegava ao cimo
E a seta indicava o destino
Se metia a segunda e depois a terceira.
A quarta só quando a lomba se já não via
E a quinta ainda não havia…
E lá ao fundo
Atrás da capela
Acenando um lenço branco
Minha mãe dizia-me adeus
Até quando voltasse vê-la.
Para trás ficavam pinheiros
Cabras ovelhas e amieiros.
Pedras carreiros e ribeiros
Leiras e eiras de milho
Cheiro de ervas e de vinho.
E Lisboa era longe…
Tão longe que não se via
Da aldeia de onde eu saía…
De: Izidro Alves
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